Solidariedade? Diz Émile Durkheim que para entender ou conceituar solidariedade é preciso analisar uma sociedade a partir de um espaço e de um tempo e reconhecer qual o grau de consciência coletiva e individual deste grupo. Aqui é bom dizer que solidariedade, para ele, é os laços que nos prendem uns aos outros e nos permitem viver em sociedade.
Segundo este teórico, sociedades menores, onde o sentimento de pertencimento e identidade são maiores, maior a solidariedade deste grupo, de onde se conclui que em sociedades maiores, o grau de solidariedade é inversamente proporcional ao seu tamanho.
Confesso que fiquei por vários dias pensando o que escrever, ou como escrever partindo do texto sugerido e buscando entender, em minha consciência individual e também coletiva, uma forma de expressar o que eu entendo e como vejo a solidariedade nos dias de hoje. Até onde a expressamos e até por onde a reconhecemos como um sentimento, ou um dever a cumprir.
Saí dos livros e fui para o campo...fui para as praças...fui para as ruas. Situei-me. Vivo numa cidade grande, num estado que busca o crescimento, num país que emergiu. No campo encontrei uma luta de classe, uma luta pela terra. Mais do que isso, uma luta pela dignidade humana. Nas praças vi diversos movimentos e bandeiras buscando um mundo melhor, com menos corrupção e maior igualdade de possibilidades. Nas ruas, vi pessoas apressadas, correndo contra o tempo e trabalhando mais para terem mais e mais.
Em todos esses espaços, percebi que solidariedade é um sentimento e é inerente ao ser humano. No campo, o que os mantêm unidos e cada vez mais fortes (embora a mídia diga o contrário) é o desejo de uma transformação, não somente a partir da posse da terra, mas do que dela brotar. Nas praças, o movimento pelo fim da corrupção e a busca por um mundo melhor é a prova de que temos a capacidade de olhar o outro como igual, enquanto ser, e por ele, mesmo sem o conhecermos, lutar. Afinal, o fim da corrupção traria melhorias e divisas a todos os brasileiros e não somente para aqueles que lá estão.
E as ruas, o que refletem? O que estas pessoas apressadas, e aparentemente sós, nos mostram? Aqui, desviei meu olhar para os muros e para os processos de educação. Um muro de uma escola, na cidade de SP, amanheceu pichado com a seguinte frase: "Vamos cuidar do futuro de nossas crianças brancas". Esta escola tem em sua proposta pedagógica o ensino anti-racismo, ou seja, busca despertar em seus alunos o sentimento de igualdade e não superioridade entre as raças.
Ruben Alves nos diz: Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente…Então posso dizer: se somos por natureza solidários, o que nos falta para despertar esse sentimento?Que padrões precisamos romper? ...E se em nossas escolas e nos demais espaços onde se dá a educação, ultrapassássemos a barreira do tecnicismo, da educação competitiva, deixando de "instrumentalizar" para a solidariedade, a despertaríamos ?
Ao “Instrumentalizar” nos utilizamos de palavras e teorias para falar da necessidade de sermos solidários, e esquecemos que, em contrapartida, a vida real vende o outro como rival, como inimigo. E vai além, diz que esse outro pode te destruir e te aniquilar, sugerindo então que o façamos antes.
Está na hora de pensarmos uma educação, onde a prática possa adentrar num tempo e num espaço de trocas. É preciso relações onde não mais sufoquemos a amorosidade e que não mais tenhamos a necessidade de explicar o porquê de sua importância, mas onde a solidariedade seja um desejo brotando naturalmente e que resista a todas as tentativas de desumanizar homens, mulheres e crianças.
Não temos a obrigação de sermos solidários. Não vendamos isso. Temos, sim, o desejo. É isso que nos torna humanos. Então sensibilizemos o olhar. No passado, a escola Peripatética ensinava ao ar livre. Nos dias de hoje, somos livres para voar e ir onde quisermos sem sair do lugar. Usemos os recursos disponíveis e socializemos as práticas solidárias e que acreditam na utopia de um novo mundo, e não somente na possibilidade de solidariedade para com os iguais, mas também com os diferentes. Aquela que não vê cor, raça, sexo e nem religião.
Vamos re-descobrir que “Pela magia do sentimento de solidariedade meu corpo passa a ser morada do outro” (Rubens Alves), e o sendo, posso entendê-lo em seus anseios, aspirações e também em sua lógica. Utopia? Tenho fé na vida, fé no homem e fé no que virá... Vamos lá fazer o que será??!!!
Patrícia Berg
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