terça-feira, 6 de dezembro de 2011

'Antes tarde do que nunca!' ;)

Olá pessoal!


Primeiro, não postei meus comentários porque não conseguia entrar no blog, problema q foi solucionado dia o2/11. Mesmo antes de resolvido este problema, sofri uma grave intoxicação respiratória por causa das cinzas do vulcão chileno, estando em tratamento desde o dia 08/10 até quando for preciso. Organizei meus comentários num pequeno texto que segue abaixo.



Existe um dito popular que afirma ‘Quem menos anda, voa!’, apesar de fazer parte da cultura brasileira a longos anos, o dito já foi modificado e agora aparece em várias citações como ‘Quem menos corre, voa!’. Pois bem, na era de uma pós-modernidade duvidosa, preconceituosa, excludente, individualista, cientificista, não é difícil concluir que é exigido viver o tempo de ‘voar’.

O ser humano vive uma individualidade e uma competitividade arraigada pelos novos tempos, onde existe espaço apenas para ‘o fluir individual do novo de cada dia’. Zygmund Bauman discute este fluir desenfreado do novo, do individual, do descartável na maioria de suas obras, onde usa o termo ‘modernidade líquida’.

Segundo o autor, em tempos de modernidade líquida, não existem mais pessoas para se relacionar, mas futuros clientes para seduzir. Qualquer vínculo que demonstre a possibilidade de uma solidez pode ser considerado uma ameaça na pós-modernidade. O interesse está em afastar cada vez mais o ser humano de suas comunidades de pertença, propiciando desta maneira a difusão do individualismo, do consumismo, da liquidez.

Todo este discurso dos novos tempos está cada vez mais contrário ao que a educação representou desde a maior parte da sua história. Cada vez mais se considera educação apenas o que é vivido e ensinado nos espaços formais de aprendizagem. A educação informal, que acontece a todo momento, nos mais diversos espaços é desconsiderada como tal, portanto é descartável.

No contexto acima citado é possível perceber várias re-emergências nas mais diversas áreas. Pode-se começar pela educação, citando Tzvetan Todorov, que fala em entrevista à revista Bravo, edição de fevereiro de 2010, onde assume que considera praticamente um abuso de autoridade, o professor decidir mostrar aos alunos o que ele considera importante ser ‘ensinado’, baseado sempre no programa definido previamente pelo Ministério da Educação. “As crianças não têm ideia da riqueza que podem encontrar num livro porque ninguém mostrou a elas" (Todorov).

Continuando na área da educação, Freire já vinha apontando e trabalhando para a re-emergência na educação popular. Uma vez estipulada uma desigualdade na educação formal, nega-se o acesso de grupos cada vez maiores, marginalizados e excluídos da sociedade, os que recebem a educação para serem dirigidos, negando-se assim a participação efetiva desses grupos como vozes ativas em seu âmbito de aprendizagem.

Protagonismo e diversidade, esses são os novos rumos da educação popular no Brasil. Na nova educação popular o indivíduo passa a ser o autor de sua história. O indivíduo como autor de sua inclusão. Por essa concepção, o próprio excluído deve estar apto a buscar aquilo que lhe é de direito. Cabe ao educador popular despertar esse sentimento em sua comunidade, movimento ou cooperativa. Essa busca pelo resgate da cidadania e a necessidade de inclusão permitiu, então, que a educação popular cruzasse a fronteira da escolarização e formasse um emaranhado de segmentos. Se no início o apoio fundamental girava em torno dos movimentos populares, com o decorrer do tempo passou-se a apoiar determinados movimentos sociais mais amplos: dos direitos humanos, pela paz, em defesa do meio ambiente, de etnia, de gênero.

Ainda entre as diversas re-emergências possíveis de se observar na atualidade está a cultura. A episteme multicultural baseia-se na importância dos fatores socioculturais presentes em nas comunidades de pertença e na interioridade de cada indivíduo. Néstor Canclini, como os demais autores aqui citados, criticou o fenômeno da globalização, que acaba por dominar diversas culturas, mas considerado, no entanto, como um processo inevitável. Canclini afirma, ainda, que os aspectos culturais globais não perdem sua relação com o local. Devido à complexidade do mundo em que vivemos, segundo ele, viver-se-ia hoje a multiculturalidade ou a chamada “hibridização” cultural. Canclini sugere a valorização da cultura subalterna como forma de resistência a ação do modernismo e do pós-modernismo. O subalternismo se constitui como um programa "contra o imperialismo, contra a diferença que subordina e contra o poder cultural das corporações" (Canclini).

Partindo da re-emergência do multiculturalismo/transculturalismo, faz-se necessário abordar também a re-emergência referente à diversidade, que se baseia na valorização da diferença, na subjetividade, apoiando-se em uma mudança de paradigma, trazendo uma instabilidade ao “Conservadorismo” que se opõe ao Multiculturalismo como movimento de mudança social. Este “Conservadorismo” encara as coisas como acredita que deveriam ser, preservando o “bom senso, a moral e os bons costumes”. Tal conservadorismo se nega a aceitar que o Multiculturalismo/transculturalismo tornou-se uma fonte inesgotável de inserções e de pesquisas sociais onde é possível o ser humano ser visto e respeitado como tal, independente de suas ‘diferenças’. Para Andrea Semprini o ’confronto’ entre igualdade e diferença está no centro da questão multicultural. Segundo ela, a igualdade desconsidera as especificações étnicas, históricas, de identidade, de pertença, de gênero, sexualidade – em suma, a diferença – que torna o espaço social heterogêneo. Assim o multiculturalismo age como um revelador, mostrando as diferenças, contradições e paradoxos de uma sociedade que se diz igualitária. Esta sociedade igualitária que é monocultural acaba confrontando-se com a expansão das diversidades reais, o que torna difícil a mediação dialética, transformando a questão multicultural/transcultural em uma questão conceitual, que no entanto, aos poucos vai conquistando os espaços sociais que lhe são de direito.

Portanto, não basta apenas promover o acesso à educação ao sujeito, é necessário que ele saiba usá-la de forma crítica. Não apenas na área de alfabetização, mas também em direitos humanos, desenvolvimento sustentável, sexualidade, na questão rural, nas questões étnicas e raciais, conseguindo promover dessa forma, um discernimento para desigualdades, preconceitos, dificuldades de percepção do outro, vivências e relações socioculturais.

Continuando a falar das re-emergências da pós-modernidade, Milton Santos aponta para a exclusão evidente de uma grande fatia da população mundial da grande ‘aldeia global’ em que a sociedade se transformou nos tempos pós-modernos. Esta nova conjuntura social que sugere o mundo como ‘aldeia global’ procurando transmitir uma impressão de proximidade e interação dos espaços, tempos, culturas, de uma inclusão acessível à qualquer pessoa, bastando o querer, torna-se inevitável a pergunta: nesta grande ‘aldeia global’, não existiria uma 'periferia', onde residiriam os excluídos, os visivelmente ignorados pela sociedade?

Pode-se identificar várias re-emergências na sociedade pós-moderna, no entanto, a questão é não somente identificá-las, mas tentar saber como agir perante as situações expostas. Creio que não basta apenas promover o acesso à educação ao sujeito, é necessário que ele saiba usá-la de forma crítica. Não basta apenas ser alfabetizado, mas também ciente e crítico dos direitos humanos, desenvolvimento sustentável, sexualidade, na questão rural, nas questões étnicas e raciais, conseguindo promover dessa forma, um discernimento para desigualdades, preconceitos, dificuldades de percepção do outro, vivências e relações socioculturais.

O estilo de vida se leva atualmente, criado pelo próprio ser humano, a sociedade altamente competitiva e capitalista, onde quem controla nossas vidas, ações e comportamentos são palavras de ordem como, eficiência, liquidez, individualismo, informação, progresso, lucro, capacidade de produção e onde se exige cada vez mais rapidez. Ironicamente o homem, sempre buscando as ‘ofertas’ da pós-modernidade e sua liberdade de escolha, acabou tornando-se escravo de suas próprias criações.

Mara Welter.

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