Segue a continuação do texto, com uma pequena correção em vermelho. Ainda, não consegui definir o título. Prometo pensar nisso com carinho., já que o tema é tão instigante. A parte que fiz agora está em preto, abaixo do texto azul da Juliana, com direito a "riscos e rabiscos" (a regra continua).
Reinventar...( Continuamos sem título, por enquanto....)
Da sala de aula até a porta de saída do prédio existe um tempo e um espaço onde os discursos afloram. Podemos chamá-los de “discursos de corredor”. Não sei por que isso acontece, (mas acontece): eles surgem com clareza e com verdades absolutas. Neles sabemos exatamente o que queremos e buscamos, seja ao falarmos de projetos ou de referenciais e teorias.
Isso talvez aconteça porque liberamos nossa mente dos bloqueios impostos pelo formato do ambiente formal que perdura das escolas às universidades. E se isso é verdade, também é verdade que os espaços de aprendizagem precisam ser repensados, ou re-inventados para permitir a fruição da linguagem e da mente.
Partindo desse pressuposto, analisar e entender a construção do conhecimento que se dá nas ruas e nos espaços não formais de educação é elemento fundante de pesquisa para essa reinvenção.
Peguemos o exemplo da aprendizagem da língua estrangeira. Ao entrarmos em uma comunidade periurbana, onde as dificuldades e carências são evidentes, professores se deparam com uma realidade distanciada da sua e pouco fértil para criar o desejo nos alunos em aprender uma nova língua. As técnicas e os meios de ensino não estimulam o querer e não justificam sua existência. Por outro lado, para os alunos a forma é desconexa da realidade vivida.
Porém, fora da sala, se nos atentarmos e prestarmos atenção nas conversas, certamente veremos diálogos do tipo:
- E aí brother? Vamos comer um hot dog?
- Bah, never!! Tô sem money.
- No problem…I have.
Isso mostra que, para além de um conjunto de regras gramaticais e de palavras a serem memorizadas, existe um “corredor” usado como meio de aprendizagem e de troca de um sistema de códigos linguísticos, os quais dominam e dos quais se utilizam como instrumento para interagirem com o mundo.
Quando este “corredor” está sendo utilizado como um meio, para que a aprendizagem se estabeleça, estamos dizendo que o espaço da sala de aula não é a única possibilidade de interação com os saberes ou signos e que existem inúmeras maneiras e sistemas, onde a troca pode ser efetiva.
Os espaços periurbanos aparecem como fronteiras entre a cultura urbana e rural, quando na verdade já foram derrubadas. A linha que separa as civilizações do mundo moderno é muito tênue. O acesso à informação não privilegia somente àqueles que detêm o capital, poucos não sabem o que seja hot dog ou money.
É preciso reinventar não apenas novas formas de ensino-aprendizagem, mas uma nova forma de ver o Homem. Ter um novo olhar significa desmistificá-lo, conseguir enxergá-lo por inteiro, sem preconceitos e sem barreiras. Reinventar é lembrar e por em prática relações horizontais, onde as diversas singularidades constroem uma rica pluralidade de identidades e de saberes. Reinventar é superar o possível!
A nova sociedade requer que além de saber conviver com as diferenças, saibamos compartilhar conhecimento/saber com quem quer que seja, independentemente do espaço social.
Todavia, a educação permanece como a velha barreira dos bancos escolares que há séculos nos persegue, precisamos parar e ter um novo olhar. Assim nos depararemos com espaços onde a aprendizagem não somente da língua estrangeira, mas da geografia, da matemática e tantas outras disciplinas já são ensinadas e aprendidas através da convivência com outros integrantes da sociedade, que não necessariamente sejam professores.
Ter um novo olhar significa nos desprendermos dos velhos moldes que a nossa memória insiste em ficar atada para conseguirmos então, dar um passo a frente para reinventar velhas e novas formas de aprender que perpassam por outras práticas não formais de “ensinagem”.
Entretanto, para conseguirmos enxergar novas formas de aprender, precisamos primeiro analisar os processos solidários que permeiam as comunidades, coooperativas e tantos outros espaços de economia solidária, onde as pessoas por terem um objetivo maior e coletivo, se ensinam uns aos outros, fortalecem e respeitam o potencial de cada um e dessa forma o envolvimento e motivação que faltam nas salas de aula formais já ocorre nesses espaços ditos (in)visíveis.
Vivemos um tempo de re-emergência onde há um grande distanciamento da teoria e do empirismo. A escola insiste em teorizar, avaliar, ditar o certo ou o errado segundo as diferentes epistemologias, enquanto que nos espaços periurbanos o que ocorre são vivências de aprendizagem, são artefatos que foram apreendidos na práxis, são avaliações de vidas e não de estudos científicos.
A grande trasnformação que necessitamos nesses novos tempos, pode ser utópica, porém uma alternativa seria apanharmos a sabedoria encontrada nas ruas e levá-la às escolas, para que assim ocorra um diálogo mais válido na educação, um diálogo, onde memórias e vivências se unam aos estudos teóricos, para então falarmos em processos de ensino aprendizagem com propriedade.
De acordo com Todorov (p.20, 2008) “a vida em sociedade impõe a aprendizagem da reciprocidade”, e é exatamente isso que está faltando nos educadores, a humildade para fazermos trocas recíprocas e aceitar que saberes da rua, também são importantes para a construção da sociedade e que não são meramente objetos de estudo.
Essa reciprocidade é visível em espaços onde um bem comum, um interesse maior é construído pelo coletivo, que pode ser dentro dos movimentos socias, em grupos que visam uma economia solidária ou até mesmo em grupos de vulnerabilidade social nas ruas de Porto Alegre.
A economia solidária adquire uma dimensão maior, quando nestes espaços são compartilhados os saberes da produção. O intuito deveria ser a possibilidade de todos evoluírem juntos. Nas relações de trabalho onde a equidade é um valor, as trocas são mais efetivas e a aprendizagem passa a ser extremamente significativa.
Poderíamos trazer como exemplo o caso de uma confecção da moda feminina, cooperativa de modelistas e costureiras. O conhecimento/saber necessário para executar o trabalho ultrapassa o simples costurar, a modelagem exige conhecimentos de matemática, embora o trabalhador em geral não tenha noção de geometria plana ou espacial, consciente.
Esse é mais um dos pontos que gostaríamos de trazer para reforçar a ideia de a aprendizagem que se dá nestes espaços é um saber significativo e de extremo valor para a evolução da sociedade como um todo. A maneira como o homem produz a riqueza e como se relaciona com o trabalho é determinante no modo de produção do Estado. Segundo Martins (2011, p.104), “A coisificação das relações sociais promove a alienação do homem em relação à sua obra, faz com que apareça como coisa e objeto, e não sujeito de sua própria obra.”
O grande desafio é transformar a velha forma de produção em um meio partícipe de sobrevivência, onde o trabalhador seja quem pratica a ação, sujeito da sua história e não objeto, mero espectador. A práxis exige rigor epistemológico, trocas sistemáticas, não existe a possibilidade de se obter um resultado satisfatório quando não existe o comprometimento com a realidade posta.
Paulo Freire dizia que ninguém é uma tabula rasa, portanto respeitar os saberes do trabalhador é condição sine qua non para que o processo de ensino-aprendizagem se estabeleça. Desta maneira, seriam utilizados na prática todo e qualquer conhecimento já experimentado ou vivenciado e, assim, haveria uma contribuição efetiva para o desenvolvimento do coletivo.
Maria do Carmo Vargas
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