O filme SI PUÒ FARE, ou DÁ PARA FAZER, baseado em fatos reais, faz uma alegoria inteligente a diversos dilemas e contradições vividas na contemporaneidade: Por um lado discute um primeiro dilema vivido, ainda hoje pelo movimento da economia solidária e pela esquerda de um modo mais amplo que é o de se inserir nas regras ou no jogo do mercado buscando nele as condições materiais para a sobrevivência de grupos em situação de vulnerabilidade social ou negá-lo, mantendo-se “puro”, porém sem oferecer as mesmas condições materiais necessárias àquela sobrevivência. Uma segunda questão diz respeito à capacidade produtiva e organizativa destes mesmos grupos. Outra questão interessante tratada no filme se refere ao contraponto entre individualidade versus objetivos do grupo. Muitas vezes no afã de atingir objetivos maiores, grupos sociais passam a negligenciar individualidades se desumanizando. As relações de poder, também, são inteligentemente discutidas quando Nello tenta empoderar os trabalhadores da cooperativa, o presidente psiquiatra diz que eles são incapazes e da mesma forma entre os mesmos trabalhadores se julgando da mesma forma. Em um determinado momento, quando Nello precisa se ausentar, instala-se um vazio que por pouco não se torna caos porque os trabalhadores não estão habituados a agir com autonomia e sim a serem tutelados.
A questão de se inserir ou não no mercado tem gerado muita discussão dentro do Movimento de Ecosol. Até que ponto podemos conviver em um mercado onde a competição é a regra e está acima de qualquer coisa? Onde não há ética ou respeito ao ser humano?
Por outro lado, como prover o sustento das famílias sem se inserir neste mesmo mercado. Muitos empreendimentos têm tentado manter seus valores e ao mesmo tempo se relacionar com o mercado capitalista. É isso possível?
Os processos de empoderamento de grupos sociais em situação de vulnerabilidade também se constituem em grandes desafios, uma vez que a lógica e a cultura hegemônicas fazem-nos a todos acreditar que estes sujeitos nunca conseguirão construir a sua autonomia e que são muito poucos capazes. No filme quando se conseguem identificar nas individualidades as características úteis à cooperativa o grupo cresce e as pessoas passam a acreditar em si mesmo. Da mesm a forma, aqueles já empoderados e com alguns saberes importantes já construídos precisam apreender a respeitar os processos e o ritmo de crescimento de cada um pois se isso não ocorre, ocorre a hierarquização/verticalização das relações e isso é apenas o primeiro passo para a desconstrução das relações solidárias e dos princípios da Ecosol.
João
Nenhum comentário:
Postar um comentário